O comércio em Sertãozinho

CICLO PASTORIL : A área que forma o município de Sertãozinho teria sido adquirida por volta de 1830, pelo “entrante mineiro” Inácio Maciel de Pontes , denominando-a de fazenda “Sertãozinho do Mato Dentro”, então pertencente à freguesia de São Simão e vila ( município) de Casa Branca. Por volta de 1.856, após a morte de Inácio, os seus herdeiros passaram a explorar a terra, em condomínio ( a divisão só se concluiu na década de 1.930). Os primeiros que assim fizeram, penetrando nestas paragens valendo-se das correntes favoráveis do rio Mogi Guaçu e do ribeirão da Onça, foram Antonio José Rodrigues e Manoel Jacinto de Pontes, filhos de Antonio Maciel de Pontes e netos de Inácio Maciel de Pontes, igualmente vindo de Minas Gerais. 

Exerciam a caça, o pastoreio e agricultura de subsistência. Ainda algum tempo depois, não havia estradas, apenas “picadas”. O comércio se dava pelo escambo. Trocava-se gado e alguns produtos agrícolas por sal, tecidos, couros, panelas. Os vendedores ambulantes, a cavalo ou carroças, passavam pelas incipientes fazendas, que estavam sendo abertas, negociando os seus produtos.

CICLO DO CAFÉ: A partir da década de 1.870, vieram a se estabelecer na área, que passou a pertencer a Ribeirão Preto, a partir de 1.874, fazendas de café, algumas delas autossuficientes, pois tinham armazéns de secos e molhados. Em 1.876, os herdeiros dos Pontes e condômino da fazenda Sertãozinho, o mineiro Antonio Malaquias Pedroso e sua esposa, doaram 12 ½ alqueires para início do patrimônio da Igreja, que acabou elevando-se a 148 alqueires. Em torno da capelinha consagrada a N.S.Aparecida, surgiu a povoação, inicialmente chamada de “Capelinha”, passando, ao depois, ser conhecida por Sertãozinho. Para se chegar na “Capelinha”, cercada por mata densa, ou se valia do rio Pardo ou do rio Mogi. Deste último, partia-se da Fazenda Guatapará, de João Franco de Moraes Octávio, passava-se pela fazenda Santa Maria ( Lajeado), de Gabriel Junqueira e chegava-se ao povoado, através da fazenda Dumont. A primeira via de comunicação direta entre Sertãozinho e Ribeirão Preto foi aberta pelo próprio Antonio Malaquias Pedroso. A valorização da terra, a renda proporcionada pela rubiácea e a chegada migrantes e imigrantes deram causa ao florescimento do núcleo urbano, com comércio, oficinas artesanais e prestadores de serviços.


Outro meio de comunicação que contribuiu para o comércio de produtos foram os vapores da Cia. Paulista de Vias Férreas e Fluviais, os quais, partindo de Porto Ferreira, navegavam pelo rio Mogi Guaçu e, no ano de 1.887, passaram a atracar no “Bico do Pontal”, na junção do rio Mogi com o rio Pardo, então terras do distrito de Sertãozinho. Neste local, havia o armazém de José Joaquim Ferreira Telles, que recebia as mercadorias pelo vapor e fornecia arame farpado, sal, querosene e tecidos para as regiões percorridas pelo rio Pardo, pelo rio Grande até o rio Paraná. A navegação fluvial foi extinta em 1.898. Em 1.899, a Cia. Mogiana de Estradas de Ferro chegou à sede do município.

Em 1.901, a Cia. Paulista de Estradas de Ferro chegou à Fazenda São Martinho (estação Martinho Prado) ; em 1903, em Barrinha e ainda em 1903, em Pontal, cujo núcleo populacional surgiu em torno da estação, transformando-se em distrito do município de Sertãozinho, emancipado de Ribeirão Preto, em 5 de dezembro de 1.896. É de se ressaltar que com o trem foi o comércio incrementado, eis que trouxe os caixeiros-viajantes e maior sortimento de mercadorias. Também com ele vieram os imigrantes, sobretudo os italianos, os quais se estabeleceram nas fazendas de café, mas, paulatinamente, foram se urbanizando, concorrendo para o engrandecimento das povoações, dentre elas Sertãozinho, tornando-se comerciantes, pequenos industriais, prestadores de serviços e, por conseguinte, consumidores. Além do imigrante italiano, muitos novos moradores, jornalistas, proprietários de fazendas e casas de comércio vieram das cidades cafeeiras decadentes do Estado do Rio de Janeiro, como Rezende, Piraí, Vassouras e Barra Mansa. As informações que se tem dos primeiros tempos da cidade já emancipada (1.896 até 1.905) sobre o comércio são aquelas encontradas no Almanaque de Sertãozinho, editado em 1905, pelo jornalista Juvenal Martins, um dos que vieram do estado do Rio de Janeiro. Os estabelecimentos nele elencados certamente já existiam desde pelo menos das últimas décadas do século anterior. É de se observar que os principais estabelecimentos comerciais, varejistas estavam concentrados em torno da Praça 21 de abril e na então rua Piratininga ( também chamada “Rua do Comércio”) , hoje Barão do Rio Branco. 


Em 1905, existiam em Sertãozinho 03 farmácias, outra em Cruz das Posses e mais uma em Pontal. 

As relojoarias e ourivesarias eram 5 . As lojas de fazendas e armarinhos somavam 21, em Sertãozinho, e mais uma na Fazenda São Martinho. Os armazéns de secos e molhados perfaziam, na cidade, distritos e fazendas, 86 estabelecimentos. Os bares eram em número de 15, 7 açougues, 3 confeitarias, 6 padarias, 13 sapatarias, 2 depósitos de madeiras, Dentre os nomes dos proprietários, a maioria já é de nomes italianos, seguindo dos brasileiros e portugueses e alguns sírios-libaneses. O município chegou a ter 17 milhões de pés de café e a população dessa época áurea do café girava em torno de 20 mil habitantes.Os consumidores eram, em maior número, lavradores, que vinham à cidade, aos sábados, para comprar o que necessitavam. As vendas eram feitas à credito, com anotações em cadernetas, muitas das quais só eram liquidadas após a colheita. Já se destacavam nessa época a “Casa Ortolan”, de José Ortolan; a “Pharmacia Araújo”, de Aprígio Rello de Paula Araújo; a loja de Carlos Sala, depois transformada em posto de gasolina; o armazém de secos e molhados de Fioravanti Sicchieri; o açougue de José Bonini, a sapataria de Irineu Marcovecchio, a casa de modista de Antonia Bertuzzo, a alfaiataria de Raphael Castaldi, o depósito de madeira de Antonio Bianchoni. 

CICLO DO ALGODÃO: Em razão da queda da exportação decorrente da 1ª. Grande Guerra, das intempéries, principalmente a grande geada de 1.918 , a partir dos anos 20 chegando até aos anos 40, o café passou por diversas crises, principalmente em 1.929, culminando com a proibição, em 1.932, do plantio de novos cafezais pelo governo do estado de São Paulo. A partir de então, iniciou-se uma fase de substituição de cultura, sobressaindo, dentre outras, aquela do algodão. Esse início da decadência da cafeicultura promoveu o primeiro grande êxodo da população rural. Aqueles que haviam amealhado algum dinheiro dirigiram-se para as novas regiões, como Olímpia, Lins, Marília e norte do Paraná.

Outros vieram para a cidade, dentre eles muitos dos artífices que trabalhavam, nas fazendas de café, com ferro, madeira, couro, construções. De empregados transformaram-se em pequenos empresários com melhor renda. Foi assim que, nas décadas de 1940 e 1.950, Sertãozinho transformou-se na “Capital Nacional das Carroças e Carrinhos”, com indústrias que pagavam bons salários e possibilitavam aos empregados aquisição de bens no comércio local, onde já pontificavam as “Casas Pernambucanas”, a “Casa São Jorge”, da família Moysés, com armarinhos e roupas feitas e o bar e restaurante “A Paulicea”, que era a parada dos ônibus que circulavam entre Ribeirão Preto e Barrinha; a Farmácia Aguiar, a “Casa Santa Ângela”, de Antonio Ortolan, a padaria e fábrica de macarrão da Família Guidoni; a loja de ferragens de Joaquim Cacacce. 


CICLO DA CANA: As instabilidades de preços do café possibilitaram, igualmente, que fosse iniciada, no município, ainda antes do século 20, a implantação de diversos pequenos engenhos que fabricavam açúcar mascavo, rapadura e aguardente. O mesmo “Almanaque” noticia que, em 1905, existiam 33 deles. Coexistiam a cana e o café, possibilitando renda e consumo. O maior dos engenhos, sendo considerado a 1ª usina de açúcar do município, o “Engenho Central” foi implantado pelo Cel. Francisco Schmidt, no sítio Pocinhos, próximo à fazenda Vassoural. Assim, paulatinamente, foi sendo feita a efetiva substituição do café pela cana. Em 1.916, o próprio Cel. Schmidt implantou, na Fazenda São Miguel, a usina Albertina. Em 1.932, foi implantada a Usina Santa Elisa; em 1.946, a Usina São Geraldo; em 1947, a Usina Santo Antonio; também em 1.947, a Usina Santa Lúcia ( Sverzut). Na mesma época foram implantadas as Usinas São Francisco e Sant´Anna (Verri). Essas indústrias maiores, bem como os engenhos, deram causa à implantação de uma formidável indústria de equipamentos, que vieram proporcionar aos moradores do municípío cidade renda e possibilidade de consumo e, por consequência, uma melhor estrutura comercial.

O retrato social e econômico desse período está exposto na obra “Documentário Histórico de Sertãozinho – 1896-1956”, coordenada pelo médico Antonio Furlan Júnior .Em 1.956, o comércio de Sertãozinho era representado por 269 estabelecimentos, assim especificados: armazéns de secos e molhados: 60; bares,sorveterias e restaurantes: 38; lojas de tecidos e armarinhos: 17; alfaiatarias:7; lojas de móveis:7; farmácias:9; açougues:10; postos de gasolina:8; livrarias:2: vendas de louças, ferragens e matérias de construção:14; oficinas mecânicas: 25; outros:63. Não obstante essa boa base comercial, já nessa época, dada uma maior exigência do consumidor e melhor ligação por estradas, o comércio local passou a sofrer uma maior concorrência daquele de Ribeirão Preto. Merecem destaque nessa época, as farmácias das famílias Benvegnu e Machado, a “Sapataria Pelá”, as padarias “Capelli” e “Scaranello”. os armazéns de secos e molhados de Edmundo Teixeira, de Oswaldo Ortolan, de Anoar Moysés e de Elias Calil; a loja de ferragens, de Vicente Quaranta; a loja de sapataria de Vicente Mammana; CICLO DA INDÚSTRIA SUCROALCOOLEIRA.


Em 14 de Novembro de 1975 o decreto n° 76.593 cria o Pró álcool. Dentre os seus “pais”estava Maurílio Biagi, da Usina Santa Elisa e da Equipamentos Zanini. 

O programa veio a incentivar a produção sucroalcooleira e teve notável repercussão em Sertãozinho. Expandiram-se as usinas e as indústrias de equipamentos. A necessidade de mão de obra carreou para a cidade levas de migrantes, aumentando, consideravelmente, a população, que perfaz nos dias atuais cerca de 120 mil pessoas. Além disso, em razão do apelo da mídia e da concorrência do comércio de Ribeirão Preto, o comércio local teve de se modernizar e diversificar o seu “mix”. Assim, apareceu o primeiro supermercado (Jamil Abdalla Mamed), seguido por outros, dois dos quais se transformaram em duas redes , expandindo-se com filiais por toda a região. Outras redes, vindas de fora, abriram filiais, aumentando a concorrência com os comerciantes locais que tiveram de adaptar os seus estabelecimentos, fazendo os necessários investimentos, melhorando a apresentação com bem decorados interiores e esplêndidas fachadas. O Poder Público também tem feito a sua parte, transformando a principal artéria comercial, a rua Barão do Rio Branco em verdadeiro boulevard.

Fonte: Texto escrito por Dr. Octávio Verri Filho, advogado militante do fórum de Ribeirão Preto-SP, tendo se aposentado, em 1997, no cargo de Promotor de Justiça da Capital.
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